segunda-feira, 16 de maio de 2016

Planejamento Social e a Prática profissional

Olá pessoal, é com prazer que compartilho um pouco do conhecimento da Professora Doutora Odária Battini, sobre Planejamento Social e Prática Profissional,  onde um dos tópicos principais é o

1.entendimento do planejamento como um processo burocratizante e formal, marcado por um lado, por um excesso de procedimentos decorrendo centralidade na eficiência (meios, recursos, estratégias) o que embaça os princípios e as finalidades da política e a subordina aos contingenciamentos, às determinações institucionais, justificados geralmente pela falta de recursos ou pela insuficiência de qualificação dos sujeitos, e, de outo lado, pela ausência dele, efetivando atividades fundadas pelo senso comum, muitas vezes traduzidas por sequências empíricas de ação;

2. A incidência da perspectiva burocratizante na pática cotidiana, convalidando a reprodução da racionalidade instrumental no exercício profissional (Guerra, 2000) subtraindo a apropriação dos determinantes da questão social que se expressam na particularidade dos objetos de intervenção, está traduzida em ações mediatas, não estruturantes e não universalizantes.
Como superar tal perspectiva?


O planejamento social é sempre vinculado a uma política que, por sua vez, é constituída das tensões entre forças sociais presentes numa dada realidade concreta. Sustentado pelos eixos, prioridades, estratégias e direcionado para atenção/superação das demandas próprias àquela política, sem prescindir das suas inelimináveis interfaces.
Tem como matéria prima a questão social, em particular aquelas expressões que manifestam uma necessidade coletiva não atendida, constituindo-se em objeto da política, a qual precisa ser reconhecida e incluída.
Assumir a perspectiva sócio-histórica torna-se fundamental, pois se assim não for, a tendência é desacreditar ações emancipatórias e cair num voluntarismo, numa prática descolada das determinações sociais. O profissional passa a desenvolver a "sua prática" afirmando "fazer a sua parte" desconectada da totalidade social.
Na perspectiva de superar esse tipo de prática, os profissionais veem buscando novo desenho de seu agir/pensar que é denso de políticas e de saberes que são explicativos da lógica de fenômenos e outros que são interventivos. Daí que na prática, as propostas profissionais exigem conhecimentos teórico-prático.
Nesse sentido, implicam em escolhas, em valores ancorados em um projeto ético-político profissional articulado a um projeto societário emancipador.
Além da consolidação do seu projeto ético-político um dos mais importantes desafios que se coloca para o seu fortalecimento é a materialização na cotidianidade do trabalho profissional,evitando que este se transforme em indicativos abstratos, descolados do processo social. Como enfatiza Iamamoto, é necessário dar-lhe vida por meio de sujeitos que, internalizando o seu conteúdo, expressam-no por ações que vão tecendo o novo projeto profissional no espaço ocupacional cotidiano, fundado na liberdade, na igualdade e na justiça social, munida desses supostos a prática profissional se ampliará, promovendo articulações interdisciplinares e intersetoriais, para tentar mover com a inércia conformada, valorizando o indivíduo como fonte de valor que tem potencialidades a serem lapidadas para a conquista da autonomia, da emancipação e do pleno desenvolvimento.
Na realidade brasileira, a justiça social tem figurado como ideal a ser conquistado a ser perseguido, cuja objetividade passa pela legalidade em prática, já que o direito não é naturalmente assegurado, mas depende do desenvolvimento da consciência das coletividades sustentada por um projeto societário que reclama uma sociedade justa, e de ações concretas que possibilitem a transformação dos valores e costumes. Afinal, a ética não se realiza na solidão de alguns sujeitos, mas na intersubjetividade social, no mundo cultural e histórico.
Os desafios são muitos, temos que superar o progresso linear fundado na especialização, na técnica, na instrumentação da vida, para exercício de prática politicamente dimensionada;

Ultrapassar a construção de tipos e padrão de sujeitos, enquadrando-os nas normativas institucionais e nos fundamentos metodológicos das profissões;

Estabelecer estratégias institucionais favorecedoras da visão da totalidade, des-hierarquizando as relações;

Operar ações coletivas entre diversas áreas como força de enfrentamento à exigências históricas;

Imprimir na prática particular as determinações gerais, produzindo condições de superação de ambas, recriando permanentemente e de modo obstinado, espaços e consciências;

Não negar conhecimentos próprios das áreas de saber, conjugando-os na formulação, execução e avaliação de uma política pública, dever do Estado e direito do cidadão, em particular, superadora da concepção da assistência social como benesse, favor, espaço de subserviência e clientelismo;

Cultivar a cultura, a crítica, a capacidade de formular, recriar e avaliar propostas que apontem para a progressiva democratização das relações sociais;

Cabe aos profissionais apreender a condição de agente de mediações promovendo a :

- valorização do protagonismo e da autonomia de grupos populacionais carentes de modos próprios de reprodução e de formas de acesso a bens, serviços. riquezas, com vistas a sua emancipação política;

- O acesso a programas, benefícios, ações das entidades não governamentais e órgãos governamentais qualificados como direitos sociais;

- Respostas às necessidades de sobrevivência e de socialização de sujeitos na perspectivas da superação da alienação e da des-coisifação da vida.
É nesse sentido que podemos afirmar:

São tão fortes as coisas, mas eu não sou coisa e me revolto.
(Carlos Drumond de Andrade)

Feliz daquele que ainda cultiva as forças da revolta e da resistência.


fonte:

GUERRA, Yolanda. A Instrumentalidade do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1995.


IAMAMOTO, M.V. Debate sobre a intervençao de Nobuco Kameyama "concepão da teoria e metodologia. Cadernos ABESS n.º3. São Paulo: Cortez. 1995. Págs. 105-116.

BATTINI, Odária. O Estado das Artes no Serviço Social. Estudo sobre a construção do conhecimento na pática profissional do assistente social. Tese de doutorado. PUC/SP.1991.