segunda-feira, 16 de maio de 2016

Planejamento Social e a Prática profissional

Olá pessoal, é com prazer que compartilho um pouco do conhecimento da Professora Doutora Odária Battini, sobre Planejamento Social e Prática Profissional,  onde um dos tópicos principais é o

1.entendimento do planejamento como um processo burocratizante e formal, marcado por um lado, por um excesso de procedimentos decorrendo centralidade na eficiência (meios, recursos, estratégias) o que embaça os princípios e as finalidades da política e a subordina aos contingenciamentos, às determinações institucionais, justificados geralmente pela falta de recursos ou pela insuficiência de qualificação dos sujeitos, e, de outo lado, pela ausência dele, efetivando atividades fundadas pelo senso comum, muitas vezes traduzidas por sequências empíricas de ação;

2. A incidência da perspectiva burocratizante na pática cotidiana, convalidando a reprodução da racionalidade instrumental no exercício profissional (Guerra, 2000) subtraindo a apropriação dos determinantes da questão social que se expressam na particularidade dos objetos de intervenção, está traduzida em ações mediatas, não estruturantes e não universalizantes.
Como superar tal perspectiva?


O planejamento social é sempre vinculado a uma política que, por sua vez, é constituída das tensões entre forças sociais presentes numa dada realidade concreta. Sustentado pelos eixos, prioridades, estratégias e direcionado para atenção/superação das demandas próprias àquela política, sem prescindir das suas inelimináveis interfaces.
Tem como matéria prima a questão social, em particular aquelas expressões que manifestam uma necessidade coletiva não atendida, constituindo-se em objeto da política, a qual precisa ser reconhecida e incluída.
Assumir a perspectiva sócio-histórica torna-se fundamental, pois se assim não for, a tendência é desacreditar ações emancipatórias e cair num voluntarismo, numa prática descolada das determinações sociais. O profissional passa a desenvolver a "sua prática" afirmando "fazer a sua parte" desconectada da totalidade social.
Na perspectiva de superar esse tipo de prática, os profissionais veem buscando novo desenho de seu agir/pensar que é denso de políticas e de saberes que são explicativos da lógica de fenômenos e outros que são interventivos. Daí que na prática, as propostas profissionais exigem conhecimentos teórico-prático.
Nesse sentido, implicam em escolhas, em valores ancorados em um projeto ético-político profissional articulado a um projeto societário emancipador.
Além da consolidação do seu projeto ético-político um dos mais importantes desafios que se coloca para o seu fortalecimento é a materialização na cotidianidade do trabalho profissional,evitando que este se transforme em indicativos abstratos, descolados do processo social. Como enfatiza Iamamoto, é necessário dar-lhe vida por meio de sujeitos que, internalizando o seu conteúdo, expressam-no por ações que vão tecendo o novo projeto profissional no espaço ocupacional cotidiano, fundado na liberdade, na igualdade e na justiça social, munida desses supostos a prática profissional se ampliará, promovendo articulações interdisciplinares e intersetoriais, para tentar mover com a inércia conformada, valorizando o indivíduo como fonte de valor que tem potencialidades a serem lapidadas para a conquista da autonomia, da emancipação e do pleno desenvolvimento.
Na realidade brasileira, a justiça social tem figurado como ideal a ser conquistado a ser perseguido, cuja objetividade passa pela legalidade em prática, já que o direito não é naturalmente assegurado, mas depende do desenvolvimento da consciência das coletividades sustentada por um projeto societário que reclama uma sociedade justa, e de ações concretas que possibilitem a transformação dos valores e costumes. Afinal, a ética não se realiza na solidão de alguns sujeitos, mas na intersubjetividade social, no mundo cultural e histórico.
Os desafios são muitos, temos que superar o progresso linear fundado na especialização, na técnica, na instrumentação da vida, para exercício de prática politicamente dimensionada;

Ultrapassar a construção de tipos e padrão de sujeitos, enquadrando-os nas normativas institucionais e nos fundamentos metodológicos das profissões;

Estabelecer estratégias institucionais favorecedoras da visão da totalidade, des-hierarquizando as relações;

Operar ações coletivas entre diversas áreas como força de enfrentamento à exigências históricas;

Imprimir na prática particular as determinações gerais, produzindo condições de superação de ambas, recriando permanentemente e de modo obstinado, espaços e consciências;

Não negar conhecimentos próprios das áreas de saber, conjugando-os na formulação, execução e avaliação de uma política pública, dever do Estado e direito do cidadão, em particular, superadora da concepção da assistência social como benesse, favor, espaço de subserviência e clientelismo;

Cultivar a cultura, a crítica, a capacidade de formular, recriar e avaliar propostas que apontem para a progressiva democratização das relações sociais;

Cabe aos profissionais apreender a condição de agente de mediações promovendo a :

- valorização do protagonismo e da autonomia de grupos populacionais carentes de modos próprios de reprodução e de formas de acesso a bens, serviços. riquezas, com vistas a sua emancipação política;

- O acesso a programas, benefícios, ações das entidades não governamentais e órgãos governamentais qualificados como direitos sociais;

- Respostas às necessidades de sobrevivência e de socialização de sujeitos na perspectivas da superação da alienação e da des-coisifação da vida.
É nesse sentido que podemos afirmar:

São tão fortes as coisas, mas eu não sou coisa e me revolto.
(Carlos Drumond de Andrade)

Feliz daquele que ainda cultiva as forças da revolta e da resistência.


fonte:

GUERRA, Yolanda. A Instrumentalidade do Serviço Social. São Paulo: Cortez, 1995.


IAMAMOTO, M.V. Debate sobre a intervençao de Nobuco Kameyama "concepão da teoria e metodologia. Cadernos ABESS n.º3. São Paulo: Cortez. 1995. Págs. 105-116.

BATTINI, Odária. O Estado das Artes no Serviço Social. Estudo sobre a construção do conhecimento na pática profissional do assistente social. Tese de doutorado. PUC/SP.1991.




















































































































quinta-feira, 13 de novembro de 2014

A QUESTÃO SOCIAL E O SERVIÇO SOCIAL

QUESTÃO SOCIAL: OBJETO DO SERVIÇO SOCIAL?Ednéia Maria Machado*
Assistente Social, professora do Departamento de Serviço Social da UEL, doutora em Serviço Social.
RESUMO
A questão social tem sido colocada, na nova proposta de reformulação curricular, como objeto do Serviço Social. Resgatar a concepção de questão social como forma de refletirmos sobre a possibilidade de a questão social, ou, as expressões da questão social, se constituir em nosso objeto profissional, é o objetivo deste artigo.
Palavras-chaves: serviço social, objeto, questão social

Ter como objeto de análise o objeto do Serviço Social é sempre um desafio. O Serviço Social é uma profissão legitimada socialmente, isto significa que ele tem uma função social. As profissões são criadas para responderem às necessidades dos homens. O desenvolvimento das forças produtivas colocam as necessidades de novas profissões, assim como considera outras desnecessárias. Mas, mesmo respondendo a uma necessidade social, o que pode ser corroborado pelo número de assistentes sociais inseridos no mercado de trabalho; pelo fato de que eles, efetivamente, trabalham desenvolvendo ações que tem um produto, produto social com dimensões econômicas e políticas; ainda assim, o Serviço Social mantém, historicamente, o dilema da especificidade profissional. Especificidade, esta, que é dada pelo objeto profissional. Em termos bastante simples, a questão é: sobre o que trabalha o Serviço Social? A resposta a esta questão responde, também, com qual objetivo trabalha o Serviço Social.
O objeto do Serviço Social, neste sentido, está, intimamente, vinculado a uma visão de homem e mundo; fundamentado numa perspectiva teórica que, no modo capitalista de produção, implica em uma opção política – a teoria norteadora da ação, a ação que re-constrói a teoria, demonstram de que lado está o Serviço Social. E, desde o Movimento de Reconceituação, o Serviço Social tem construído uma ação voltada para a maioria da população. Mas esta não foi sempre sua história.
O Objeto: da incapacidade individual às determinações estruturais
Em 62 anos, 1937 a 1999, o Serviço Social realizou uma transformação no interior da profissão. Começou creditando aos homens a “culpa” pelas situações que vivenciavam, e acreditando que uma prática doutrinária, fundamentada nos princípios cristãos, era a chave para a “recuperação da sociedade”. Chega, em 1999, assumindo uma postura marxiana, analisando que a forma de produção social é a causa prioritária das desigualdades – os homens, individualmente, não são desiguais, a forma de produção e apropriação do produto social é que produz as desigualdades, modo de produção este que deve ser reproduzido, para manter a dominação de classe. É um salto elogiável para uma profissão que começou querendo moldar os homens de acordo com os princípios cristãos de respeito à autoridade, e, hoje, tem, nos homens, a autoridade máxima a ser respeitada; uma profissão que tinha nos homens o objeto do seu trabalho, e, hoje, entende que os homens são sujeitos da história.
O objeto do Serviço Social, no Brasil, tem, historicamente, sido delimitado em virtude das conjunturas políticas e sócio-econômicas do país, sempre tendo-se em vista as perspectivas teóricas e ideológicas orientadoras da intervenção profissional.
Assim, é que, no início do Serviço Social no Brasil, 1937, o objeto definido era o homem, mas um homem específico: o homem morador de favelas, pobre, analfabeto, desempregado, etc. Enfim, entendia-se que esse homem era incapaz, por sua própria natureza, de “ascender” socialmente. Daí que o objeto do Serviço Social era este homem, tendo por objetivo moldá-lo, integrá-lo, aos valores, moral e costumes defendidos pela filosofia neotomista.
Posteriormente, o Serviço Social ultrapassa a idéia do homem como objeto profissional. Passa-se à compreensão de que a situação deste homem – analfabeto, pobre, desempregado, etc. – é fruto, não só de uma incapacidade individual mas, também, de um conjunto de situações que merecem a intervenção profissional. O objeto do Serviço Social se coloca, então, como a situação social problema:
“... o Serviço Social atua na base das inter-relações do binômio indivíduo-sociedade. [...] Como prática institucionalizada, o Serviço Social se caracteriza pela atuação junto a indivíduos com desajustamentos familiares e sociais. Tais desajustamentos muitas vezes decorrem de estruturas sociais inadequadas” (Documento de Araxá, 1965, p.11).
Na década de 70, com a mobilização popular contra a ditadura militar, o Serviço Social revê seu objeto, e o define como a transformação social. Apesar do objeto equivocado, afinal a transformação social não se constitui em tarefa de nenhum profissional – é uma função de partidos políticos ; o que este objeto, efetivamente, representou foi a busca, pelas assistentes sociais, de um vínculo orgânico com as classes subalternizadas e exploradas pelo capital. E é esta postura política que tem marcado os debates do Serviço Social até os dias atuais. Teoricamente, o Serviço Social passa a orientar-se pela análise marxiana da sociedade burguesa, mas abandonou a transformação social como objeto profissional e, no âmbito da ABESS/CEDEPSS **, o objeto passou a ser definido como a questão social, ou as expressões da questão social:
“O assistente social convive cotidianamente com as mais amplas expressões da questão social, matéria prima de seu trabalho. Confronta-se com as manifestações mais dramáticas dos processos da questão social no nível dos indivíduos sociais, seja em sua vida individual ou coletiva” (ABESS/CEDEPSS, 1996, p. 154-5).
O que é questão social?
A concepção de questão social está enraizada na contradição capital x trabalho, em outros termos, é uma categoria que tem sua especificidade definida no âmbito do modo capitalista de produção.
A concepção de questão social mais difundida no Serviço Social é a de CARVALHO e IAMAMOTO, (1983, p.77):
“A questão social não é senão as expressões do processo de formação e desenvolvimento da classe operária e de seu ingresso no cenário político da sociedade, exigindo seu reconhecimento como classe por parte do empresariado e do Estado. É a manifestação, no cotidiano da vida social, da contradição entre o proletariado e a burguesia, a qual passa a exigir outros tipos de intervenção mais além da caridade e repressão”.
Não contraditória à esta concepção, temos a de TELES, (1996, p. 85):
“... a questão social é a aporia das sociedades modernas que põe em foco a disjunção, sempre renovada, entre a lógica do mercado e a dinâmica societária, entre a exigência ética dos direitos e os imperativos de eficácia da economia, entre a ordem legal que promete igualdade e a realidade das desigualdades e exclusões tramada na dinâmica das relações de poder e dominação”.
Portanto, a questão social é uma categoria que expressa a contradição fundamental do modo capitalista de produção. Contradição, esta, fundada na produção e apropriação da riqueza gerada socialmente: os trabalhadores produzem a riqueza, os capitalistas se apropriam dela. É assim que o trabalhador não usufrui das riquezas por ele produzidas.
A questão social representa uma perspectiva de análise da sociedade. Isto porque não há consenso de pensamento no fundamento básico que constitui a questão social. Em outros termos, nem todos analisam que existe uma contradição entre capital e trabalho. Ao utilizarmos, na análise da sociedade, a categoria questão social, estamos realizando uma análise na perspectiva da situação em que se encontra a maioria da população – aquela que só tem na venda de sua força de trabalho os meios para garantir sua sobrevivência. É ressaltar as diferenças entre trabalhadores e capitalistas, no acesso a direitos, nas condições de vida; é analisar as desigualdades e buscar forma de superá-las. É entender as causas das desigualdades, e o que essas desigualdades produzem, na sociedade e na subjetividade dos homens.
E as consequências da apropriação desigual do produto social são as mais diversas: analfabetismo, violência, desemprego, favelização, fome, analfabetismo político, etc.; criando “profissões” que são frutos da miséria produzida pelo capital: catadores de papel; limpadores de vidro em semáforos; “avião” – vendedores de drogas; minhoqueiros – vendedores de minhocas para pescadores; jovens faroleiros – entregam propagandas nos semáforos; crianças provedoras da casa – cuidando de carros ou pedindo esmolas, as crianças mantém uma irrisória renda familiar; pessoas que “alugam” bebês para pedir esmolas; sacoleiros – vivem da venda de mercadorias contrabandeadas; vendedores ambulantes de frutas; etc. Além de criar uma imensa massa populacional que frequenta igrejas, as mais diversas, na tentativa de sair da miserabilidade em que se encontram.
Como toda categoria arrancada do real, nós não vemos a questão social, vemos suas expressões: o desemprego, o analfabetismo, a fome, a favela, a falta de leitos em hospitais, a violência, a inadimplência, etc. Assim é que, a questão social só se nos apresenta nas suas objetivações, em concretos que sintetizam as determinações prioritárias do capital sobre o trabalho, onde o objetivo é acumular capital e não garantir condições de vida para toda a população.
Neste terreno contraditório entre a lógica do capital e a lógica do trabalho, a questão social representa não só as desigualdades, mas, também, o processo de resistência e luta dos trabalhadores. Por isto ela é uma categoria que reflete a luta dos trabalhadores, da população excluída e subalternizada, na luta pelos seus direitos econômicos, sociais, políticos, culturais. E é aí, também, que reside as transformações históricas da concepção de questão social. O avanço das organizações dos trabalhadores e das populações subalternizadas, coloca em novos patamares a concepção de questão social. Se, no período ditatorial brasileiro pós-64 a luta prioritária era romper com a dominação política, hoje a luta é pela consolidação da democracia e pelos direitos de cidadania. As transformações no mundo do trabalho, seja com a substituição do homem pela máquina, seja pela erosão dos direitos trabalhistas e previdenciários, exigem, também, que se reatualize a concepção de questão social.
Importa ressaltar que a questão social é uma categoria explicativa da totalidade social, da forma como os homens vivenciam a contradição capital – trabalho. Ela desvenda as desigualdades sociais, políticas, econômicas, culturais, bem como coloca a luta pelos direitos da maioria da população, ou, como os homens resistem à subalternização, à exclusão, e à dominação política e econômica.
Considerando a concepção de questão social aqui, minimamente, debatida, resta-nos perguntar se é possível que ela se constitua em objeto do Serviço Social.
Questão Social : Objeto do Serviço Social?
IAMAMOTO, (1997, p. 14), define o objeto do Serviço Social nos seguintes termos:
“Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas suas mais variadas expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no trabalho, na família, na área habitacional, na saúde, na assistência social pública, etc. Questão social que sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem, se opõem. É nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham os assistentes sociais, situados nesse terreno movido por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade. [...] ... a questão social, cujas múltiplas expressões são o objeto do trabalho cotidiano do assistente social”.
É indiscutível a inserção da intervenção do Serviço Social no âmbito das desigualdades sociais, ou, mais amplamente, da questão social. Entretanto, considerando a concepção de questão social, é de se perguntar se a mesma, ou suas expressões, podem se constituir em objeto de uma única profissão. Estamos partindo da concepção de que o objeto é o que demonstra, coloca, a especificidade profissional. Ora, entender a questão social como objeto específico do Serviço Social, das duas uma: ou se destitui a questão social de toda a abrangência conceitual, ou se retoma a uma visão do Serviço Social como o único capaz de atuar nas mudanças/transformações da sociedade.
Se pensarmos na abrangência da concepção de questão social, concluiremos que as mais diversas profissões têm suas atuações determinadas por ela: o médico que atende problemas de saúde causados por fome, insegurança, acidentes de trabalho, etc.; o engenheiro que projeta habitações a baixo custo; o advogado que atende as pessoas sem recursos para defender seus direitos; enfim, os mais diferentes profissionais que, também, atuam nas nas expressões da questão social.
Há, ainda, uma outra reflexão possível: em sendo a questão social uma categoria que explicita, expressa, as desigualdades geradas pelo modo de produção capitalista, ela se colocaria, também, como objeto de todos aqueles que apostam no capitalismo como a forma perfeita de produção da vida social. Assim, ela, também, se expressaria nas políticas econômicas, sociais, culturais, traçadas em âmbito governamental, para manter as classes que vivem do trabalho subordinadas e dominadas. Ou seja, se a manifestação da desigualdade, a luta pelos direitos sociais e de cidadania, são uma expressão da questão social, não interessa as classes detentoras dos poderes políticos e econômicos que haja um acirramento da contradição, viabilizando, desta forma, espaços de organização da população. Neste sentido, a contradição capital – trabalho também é um objeto dos que buscam, na manutenção do capitalismo, a garantia de privilégios econômicos e políticos.
Segundo FALEIROS, (1997, P. 37):
“... a expressão questão social é tomada de forma muito genérica, embora seja usada para definir uma particularidade profissional. Se for entendida como sendo as contradições do processo de acumulação capitalista, seria, por sua vez, contraditório colocá-la como objeto particular de uma profissão determinada, já que se refere a relações impossíveis de serem tratadas profissionalmente, através de estratégias institucionais/relacionais próprias do próprio desenvolvimento das práticas do Serviço Social. Se forem as manifestações dessas contradições o objeto profissional, é preciso também qualificá-las para não colocar em pauta toda a heterogeneidade de situações que, segundo Netto, caracteriza, justamente, o Serviço Social”.
Portanto, definir como objeto profissional a questão social, não estabelece a especificidade profissional. Podemos entender, na sugestão de FALEIROS, que qualificar a questão social significa apreender o que compete ao Serviço Social no âmbito da questão social. Se falarmos, por exemplo, nas expressões sociais da questão social, estaremos, minimamente, definindo um espaço de atuação profissional.
Há que se ressaltar que, para FALEIROS, entretanto, o objeto do Serviço Social se define pelo empowerment:
“A questão do objeto profissional deve ser inserida num quadro teórico-prático, não pode ser entendida de forma isolada. Penso que no contexto do paradigma da correlação de forças o objeto profissional do serviço social se define como empoderamento, fortalecimento, empowerment do sujeito , individual ou coletivo, na sua relação de cidadania (civil, política, social ,incluindo políticas sociais), de identificação ( contra as opressões e discriminações), e de autonomia ( sobrevivência, vida social, condições de trabalho e vida...)” (fonte: correspondência pessoal, 15/10/1999)
Não estamos defendendo, aqui, a opção por um ou outro objeto. O fundamental é repensarmos como o objeto de Serviço Social tem sido colocado, e como poderemos revê-lo para darmos objetividade a atuação profissional.
Entendemos que, a cada situação, temos que re-construir o objeto profissional. Entretanto, ele tem determinações mais amplas, e essa re-construção tem por finalidade, apenas, garantir, no processo de intervenção, as particularidades de cada situação, inserida no contexto específico de onde atuamos.

NOTAS
** Associação Brasileira de Ensino de Serviço Social e Centro de Documentação e Pesquisa em Política Social e Serviço Social. [volta]


ABSTRACTThe social subject has been placed, in the proposal of the new curriculum, as object of the Social Service. To rescue the conception of social subject as form of we contemplate about the possibility of the social subject, or, the expressions of the social subject, to constitute in our professional object, it is the objective of this article.
Key-words: social service, object, social subject

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICASABESS/CEDEPSS. Proposta básica para o projeto de formação profissional. Serviço Social & Sociedade, XVII (50): 143-71. São Paulo, Cortez, abr. 1996
AGUIAR, Antonio Geraldo de. Serviço Social e Filosofia : das origens a Araxá. São Paulo, Cortez, 1984.
DEBATES Sociais. Documento de Araxá. Rio de Janeiro, no. 4, maio 1967
FALEIROS, Vicente de Paula. Estratégias em Serviço Social. São Paulo, Cortez, 1997
IAMAMOTO, Marilda Vilela; CARVALHO, Raul. Relações Sociais e Serviço Social no Brasil: esboço de uma interpretação histórico-metodológica. São Paulo, Cortez, 1983
IAMAMOTO, Marilda Vilela. O Serviço Social na contemporaneidade: dimensões históricas, teóricas e ético-políticas. Fortaleza, CRESS –CE, Debate n. 6, 1997
TELES, Vera da Silva. Questão Social: afinal do que se trata? São Paulo em Perspectiva, vol. 10, n. 4, out-dez/1996. p. 85-95

domingo, 4 de novembro de 2012

O processo de favelização ...


Periferia e favelização avançam nas grandes cidades da América Latina  (clique aqui para ler a matéria na íntegra)

WANDA JORGE

As condições de pobreza e desigualdade social na América Latina fazem com que 44% de sua população viva em favelas ou subúrbios com estrutura precária e condições mínimas de sobrevivência. Os dados, divulgados no início deste ano pela Comissão Econômica para América Latina e Caribe (Cepal), identificam a maior parte das favelas nas cidades, onde vivem três de cada quatro latino-americanos.
O estudo, intitulado "Pobreza e precariedade do habitat na América Latina", mostra que a precariedade é maior nas periferias das cidades do interior que, em sua maioria, não chegam a receber ajuda federal. Dos domicílios em bairros precários, 76% têm problemas de qualidade da construção e dos serviços básicos, como saneamento e iluminação. E a maioria desses domicílios é chefiada por mulheres.
A estimativa da Cepal para os próximos 15 anos é que a população das grandes cidades crescerá 2%. Nos países mais pobres da região – Bolívia, Guatemala, Haiti, Honduras e Paraguai – esse aumento será de 3%.
Dois estudos de pesquisadores brasileiros, divulgados na última reunião da SBPC em julho passado, em Cuiabá, evidenciam que o problema das favelas ou da periferização não é exclusivo das metrópoles ou mesmo das cidades; também no meio rural existem locais com péssimas condições de moradia. O sociólogo João Batista Filho, hoje na Universidade Norte do Paraná (Unopar) e sua ex-aluna na Universidade Estadual de Londrina (UEL) e atual docente do Departamento de Sociologia e Política da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT), Marineti Covezzi, realizaram estudos de caso para entender o processo. O foco do trabalho de João Batista foi Londrina, cidade do norte-paranaense, fundada por ingleses há apenas 70 anos, com vocação agrícola para os cultivos de café e algodão, pela qualidade de sua terra roxa. Projetada para um crescimento equilibrado, de forma a chegar ao ano 2.000 com uma população de 30 mil habitantes vivendo bem, Londrina tem hoje, porém, perto de 500 mil habitantes, e é marcada pela especulação imobiliária e pela presença de latifúndios urbanos. O Plano Diretor feito em 1997 identificava 43 núcleos de favelas e assentamentos; na atualidade, esse número já subiu para 68 favelas e/ou assentamentos, contabiliza o pesquisador.




Marineti Covezzi escolheu Poconé e Barão de Melgaço, municípios periféricos da capital mato-grossense, como objetos de estudo. Cuiabá nasceu planejada, conta a pesquisadora, mas a partir do inchaço provocado por áreas de exploração do garimpo e em conseqüência de uma série de condições próprias da região, da concentração de terras à crônica falta de emprego, sofre com problemas urbanos de metrópole. A pesquisa coordenada por Marineti começou dentro do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (Peld), patrocinado pelo CNPq. O foco em Mato Grosso, portanto, era meio ambiente. Mas, rapidamente se percebeu que a presença do homem é fundamental para entender o bioma pantaneiro, e esse viés foi crescendo durante o estudo. A principal questão enfrentada pelo grupo de pesquisadores foi: quais as conseqüências, ambientais e sociais, da exclusão do homem, instalado há mais de 200 anos com atividade econômica produtiva, de uma área de preservação?
ESPAÇO LEGAL A pesquisa da Unopar iniciou com a avaliação da legitimidade de ocupação nas 12 favelas mais centrais de Londrina. Como desdobramento, passou-se a apurar outras questões como o direito de acesso à cidade que essa população tem. Afinal, hoje são 160 mil habitantes em Londrina vivendo em situações de risco social, 35% deles com renda familiar de até 2 salários mínimos; 11 mil famílias em condição de miséria, com renda de um dólar por dia; e só 12 mil famílias desse universo atendidas por algum tipo de benefício social.
"São pessoas que vivem na cidade e não a cidade, com a característica de estarem sempre em trânsito". Para Batista, o olhar da cidade a partir da favela equaliza todas as metrópoles. Essas populações não têm identificação: sua rua não tem nome, sua casa não tem número, seu bairro ninguém sabe como chama. A origem das famílias que moram em situação precárias é o próprio estado: 60% do norte paranaense; 32% de Londrina; 8% de outros estados. Essa é a dramática realidade constatada pela pesquisa: "um estado rico favelando sua própria população, com 16% de analfabetos e 83% com até 1º grau", acrescenta.
OURO PANTANEIRO Os pequenos municípios de Poconé e Barão de Melgaço integram o quarto maior estado brasileiro em território – 930 mil quilômetros quadrados – mas com uma pequena população de 2,02 milhões de habitantes e um crescimento demográfico de 2% ao ano na última década. Mais de 80% dos habitantes de Mato Grosso estão concentrados nas áreas urbanas de Cuiabá, Vargem Grande, Rondonópolis e Cáceres. Um movimento totalmente contrário à proposta de colonização das décadas passadas, quando se pensou a ocupação do estado a partir da atividade agrícola."As dificuldades das terras do Cerrado impulsionaram a população para as cidades", assinala Marineti.
 

Para quem quiser ler o texto completo, clique no link abaixo do título ou copie e cole o link abaixo
http://cienciaecultura.bvs.br/scielo.php?pid=S0009-67252005000200005&script=sci_arttext

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O impacto avassalador das privatizações no mundo/Documentário Catastroika

Documentário Catastroika Discute o Impacto Avassalador das Privatizações

Em apenas dois meses, o filme Catastroika  já foi assistido por mais de meio milhão de internautas em todo o mundo. A versão com legendas em português mais visualizada através do Youtube alcançou, em pouco mais de um mês, 30 mil acessos. A razão do sucesso está, possivelmente, na abordagem de um tema que interessa a cidadãos de qualquer país: as privatizações massivas de bens públicos. O documentário, com 87 minutos, denuncia exemplos concretos na Rússia, Chile, Inglaterra, França, Estados Unidos, Grécia e outros países.

Produzido por gregos, o roteiro e a direção são assinados pelos jornalistas Aris Chatzistefanou e Katerina Kitidi. O documentário também busca apontar as iminentes consequências da atual venda de ativos públicos da Grécia, exigida para fazer frente à enorme dívida soberana do país. É traçado um futuro crítico para o país, caso o modelo econômico neoliberal seja levado adiante sob a tutela financeira internacional.

A argumentação de Catastroika se vale de notícias de jornal, documentos, evidências factuais e depoimentos. Acadêmicos e especialistas de diversos países falam sobre o estrangulamento dos serviços públicos fundamentais, os ataques contra a democracia na Europa, os programas de privatizações e as medidas de austeridade do governo grego.

Distribuição

Lançado no dia 26 de abril, o Catastroika foi produzido na Grécia a partir do auxílio coletivo de várias pessoas, que contribuíram tanto financeiramente quanto através de ideias. O documentário está disponibilizado para distribuição gratuita, através da licença Creative Commons. Para as transmissões por televisão e cinema, é possível obter de arquivos de alta resolução em vários idiomas.

A mesma equipe lançou, no ano passado, o documentário Debtocracy (Dividocracia), que já possui milhões de acessos em todo o mundo. O filme revela aspectos da crise econômica pela qual passam os países periféricos da União Europeia, em especial a Grécia.
Texto extraído do blog de http://eticaecidadania-odetedan.blogspot.com.br/

segunda-feira, 23 de julho de 2012

Relações sociais e questão social na trajetória histórica do serviço social brasileiro

 por Leonia Capaverde Bulla *

Quando o Serviço Social surgiu no Brasil, na década de 30 do século passado, registrava-se no
País uma intensificação do processo de industrialização e um avanço significativo rumo ao
desenvolvimento econômico, social, político e cultural. Tornaram-se mais intensas também as relações
sociais peculiares ao sistema social capitalista.
Quando se coloca em discussão a denominada questão social, dois elementos surgem em
destaque: o trabalho e o capital. A resposta a ser dada ao conflito, entre esses dois pólos, vai depender da
maior ou menor importância que se atribui a um ou outro desses elementos. Para entender melhor essa
problemática, considera-se, de início, o trabalho humano, destacando as relações sociais que se
desenvolvem no sistema produtivo. Focaliza-se, então, o cerne da questão social, a exploração do
trabalho pelo capital, com todas as suas conseqüências para a vida do trabalhador.
O Serviço Social profissional teve suas origens no contexto do desenvolvimento capitalista e
do agravamento da questão social. Para compreender as circunstâncias históricas ligadas ao surgimento
dessa profissão no Brasil, estudou-se o contexto da época em que foi criada no País, a década de 30 do
século passado, considerando-se como eixo central da análise a questão social em seus aspectos
econômicos, políticos e sociais. Nesse contexto, foi promulgada uma série de medidas de políticas
sociais, como uma forma de enfrentamento das múltiplas refrações da questão social, ao mesmo tempo
em que o Estado conseguia a adesão dos trabalhadores, da classe média e dos grupos dominantes, donos
do capital. O governo populista adotava, ao mesmo tempo, mecanismos de centralização políticoadministrativa, que favoreciam o aumento da produção, dando condições para a expansão e a
acumulação capitalista.
Relacionando o Serviço Social com a questão social e com as políticas sociais do Estado,
tornou-se necessário o debate de alguns elementos da problemática do Estado: o Estado liberal, o Estado
intervencionista, e as funções educativas, políticas e sociais que se desenvolvem no âmbito do Estado
moderno. Os processos de institucionalização do Serviço Social, como profissão, estão relacionados com
os efeitos políticos, sociais e populistas do governo de Vargas. A implantação dos órgãos centrais e
regionais da previdência social e a reorganização dos serviços de saúde, educação, habitação e
assistência ampliaram de modo significativo o mercado de trabalho para os profissionais da área social.
O Serviço Social, como profissão e como ensino especializado, beneficiou-se com esses elementos
históricos conjunturais. Ao mesmo tempo em que se ampliava o mercado de trabalho, criavam-se as
condições para uma expansão rápida das escolas de Serviço Social.
continua...

sexta-feira, 6 de julho de 2012

Educador social, segurança e socioeducador

Educador social: segurança e socioeducador, a conciliação

José Antonio Haas Herculano, Marcelo Gomazzi Gonçalves

Resumo


RESUMO: Este estudo procurou analisar o Educador social, profissional que trabalha como socioeducador e segurança em Centros de Socioeducação onde estão internados adolescentes que cometeram atos infracionais. Busca compreender os desafios contradições inerentes a esta função que envolve duas linhas de ação, a de socioeducador e segurança. O método utilizado envolveu as seguintes técnicas: coleta de informações em literatura e sites na internet, entrevistas e aplicação de questionário, utilizando para calculo do tamanho da amostra, erro estimado de 5% e nível de confiança de 95%, que para uma população de 74 profissionais, resultou em 63 indivíduos pesquisados. Teve como objetivo descrever a função de Educador social, seu papel enquanto segurança e socioeducador, verificar se é possível exercer as duas funções, bem como identificar possível existência de conflitos entre as funções. As conclusões permitem afirmar que existem divergências entre as equipes sendo necessário que os gestores articulem o diálogo dentro das unidades, também permitem afirmar que a dualidade de função é possível e que apesar de provocar conflitos, traz mais vantagens que desvantagens para o sistema, pode-se também concluir que a função de segurança está se sobressaindo sobre a socioeducativa.

Palavras-chave


Educador social. Socioeducador. Segurança. Socioeducação.

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Serviço Social em Revista
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